"Entre 1946-1974 dirigi a seção de terapêutica ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II. Optei por utilizar como método a terapia ocupacional, método considerado de importância menor e até mesmo subalterno. Contudo, minha intenção era reformá-lo completamente. (...) Para nós faltava-lhe algo, faltava-lhe emoção.
Foi quando certo dia um rapaz freqüentador da Terapia Ocupacional, em vez de entrar numa das salas de trabalhos masculinos preferiu entrar na sala de atividades femininas atraído pelas qualidades latentes que pressentia existirem num pedaço de veludo estendido sobre a mesa da sala. Dirigiu-se à monitora Maria Abdo e perguntou: 'Posso com este pano fazer um gato?' (...)
Completado o gato, Luis Carlos tomou um lápis e escreveu:
'Gato simplesmente angorá do mato
Azul olhos nariz cinza
Gato marrom
Orelha castanho macho
Agora rapidez
Emoção de lidar'
Enquanto manipulava seu gato de veludo, com surpreendente habilidade, Luis Carlos parecia feliz e disse: 'Como é macio! Sinto grande emoção de lidar com ele entre minhas mãos'.
Essa expressão Emoção de Lidar foi ponto de partida para substituirmos o pesado título Terapêutica Ocupacional."
ENTREVISTA
A ação curativa da alegria
Nise fala de felinos, psicanálise e utopias
Época: Por que sua admiração pelos gatos?
Nise da Silveira: Cultivo muito a independência. Por isso gosto do gato. Muita gente não gosta pela liberdade de que ele precisa para viver. No circo você vê tigre e urso, mas não vê um gato. O gato é altivo, e o ser humano não gosta de quem é altivo.
Época: A senhora foi pioneira no uso de animais no tratamento de doentes mentais, hoje muito mais usado na Europa que no Brasil. A psiquiatria avançou bastante aqui?
Nise: A introdução de animais como co-terapeutas foi o que em minha vida mais me fez sofrer. Fui ridicularizada. De modo que me liguei muito a outros países onde a psiquiatria era mais desenvolvida. Há várias correntes de tratamento, muitas hoje eu nem conheço. Mas não houve um grande avanço. Ainda se confia muito no remédio. Remédio não me parece muito eficiente. Pode ter efeito paliativo, mas não curativo. Confio mais no afeto e na ação curativa da alegria.
Época: A senhora chegou a ser presa como comunista, no Estado Novo. Hoje, como a senhora vê o mundo?
Nise: Felizmente fui presa no tempo do Getúlio. Se fosse no do Médici, eu não estaria aqui falando com vocês. O domínio do capitalismo parece que não está trazendo nada de muito bom. Também o comunismo teve suas grandes falhas, que são da natureza humana.
Época: A senhora ainda acredita em utopias?
Nise: Não. Desejo um mundo socialista, justo, mas não vejo como poderia se realizar. Quem dera o mundo fosse bom, mas não é. O que há, ainda, são pessoas boas, como o Betinho, que lutou até o último momento.
NISE DA SILVEIRA
Nasceu em Maceió, em 1906
Presa como comunista no Estado Novo, vira personagem de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, e é afastada do serviço público por motivos políticos de 1936 a 1944
Por dois períodos, em 1957/58 e 1961/62, estudou no Instituto C.G. Jung
É autora de seis livros, entre eles Imagens do Inconsciente e Cartas a Spinoza
http://epoca.globo.com/edic/19981005/cult4b.htm
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